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A remissão do caranguejo

A remissão do caranguejo

Menino ou menina, toda a criança um dia assistiu Luluzinha, seja o original de 1935, o remasterizado ou o arquivo MP4. Um dos personagens era um garoto de apelido Bolinha. Bolinha tinha um clube fechado para garotos que também levou seu nome: Clube do Bolinha.

Não sei dizer se o termo nasceu aí ou perpetuado pelo célebre apresentador Bolinha (Edson Cury), sucesso na TV brasileira nos anos 70 e 80, mas, eu, particularmente, me familiarizei através do desenho. A ABCZ, por muitas décadas, e até um passado mais recente, teve sua fase de Clube do Bolinha.

Um seleto grupo de 1.000 associados ditava o tom nas pistas e buscavam valorizar seus bovinos PO a todo custo.  O alvo, como sempre, o alto empresariado, políticos e artistas brasileiros. História que agora começa a mudar após o mercado guinar no rumo mais profissional – palpado no investimento seguro.

Então, a fonte secou; sem você que ansiava encontrar na pista o fenótipo perfeito, a coisa começou a mudar de figura. A chancela “Puro de Origem”, ou seja, o registro genealógico, por si só, já não é garantia de venda dos animais de Elite.

A ABCZ possui mais de 20 mil associados, quase um terço inativos e outra parcela ainda maior formada por gente mais preocupada no que acontece no braquiarão e não na grama do Parque Fernando Costa.

Eis que o Clube se abriu. Tanto que atualmente o criador de taurino até pode passar em frente da pista zebuína, conduta antes repreensível. Não significa que a ABCZ deixará de valorizar o gado PO. Não pode e não deve, afinal ela existe em função de preservar a essência enigmática do pedigree. Todavia, busca aproximar mais o mundo da pista do universo do pasto.

Esse processo foi perceptível na gestão de Eduardo Biagi, entre 2010 e 2013, quando reconhecera publicamente que as exposições perderam representatividade em entrevista à Revista AG e inaugurava a criação de vários fóruns para encontrar meios de encurtar esta distância.

A prova final veio na gestão atual de Luiz Cláudio Paranhos, que decidiu uma completa reestruturaçãono PMGZ, um importante banco de dados com mais de 12 milhões de zebuínos cadastrados na base genética.

Fred Mendes divulga ações da ABCZ para aproximar pista e pasto

Fred Mendes divulga ações da ABCZ para aproximar pista e pasto

Foram inseridas no programa Deps de carcaça (AOL e espessura de gordura), fertilidade e precocidade (probabilidade ao primeiro parto – o famoso 3Ps) e stayability (longevidade), além de separar o desempenho dos animais produzidos por FIV e TE.

Válido ressaltar ainda a realização anual da ExpoGenética e o fechamento de acordo inédito com a ACNB, que limita as disputas em campeonatos a indivíduos com TOP de até 40% nos programas de avaliação genética, apertando o cerco para 20% até 2021, similar à última fase da obtenção do CEIP.

Lembro que quanto maior o valor do TOP, pior é o animal. A regra vale para todo e qualquer Nelore nascido a partir de outubro de 2015. Utopia poucos anos atrás, o projeto é um marco na história da ABCZ e pode se tornar regra. São medidas que acendem a esperança de termos uma avaliação verdadeiramente funcional dentro das pistas de julgamento.

“Qualquer tentativa de simplificação leva a confundimentos. Contudo, pode se dizer que existe um movimento no sentido de aproximação dos critérios de pasto e pista”, reconhece Frederico Cunha Mendes, diretor do PMGZ. Segundo ele, a verdade absoluta nunca esteve em nenhum deles isoladamente e reuni-los representa mais do que somar. “O efeito é exponencial”, define.

Bons ventos sopram e quem sabe voltemos a ver aquelas arquibancadas de Uberaba, em Minas Gerais, repletas de gente até as tampas como acontecia até 2008, quando eu ainda editava a Revista Brahman Repórter.

Seis primaveras se foram desde o mandato de ‘Duda’ e presenciamos uma disputa ferrenha à presidência da ABCZ, mas vença quem vencer, o mercado é soberano e seria improvável o caranguejo andar para trás.

Comentários

  1. RespostaMARCILELIA GUIMARAES
    Adilson achei muito interessante as considerações. Acho que muitos não esperavam essa realidade chegar tão rápida,
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Marcilélia, quando ainda editava a Revista Brahman Repórter, ainda entre 2006 e 2009, o assunto corria apenas nos bastidores. Hoje, a realidade é diferente. O mercado impôs toda a sua soberania e exige que o touro seja realmente melhorador, além de bem caracterizado. Realmente, é um caminho sem volta e quem não se adequar pode pagar um alto preço. Obrigado por sua visita e espero vê-la por aqui mais vezes.

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