-Blog PecNética- - Aqui o touro não é de boiada!

Do tatu com cobra ao boi de qualidade

Do tatu com cobra ao boi de qualidade

Quem diria que hoje uma bezerra meio-sangue Nelore x Angus superaria R$ 2.000,00. Impressiona ainda mais ela ser utilizada como matriz.

Na década de 90, muito pecuarista não tinha destino a um bicho “desse”, quando a mestiçagem de raças enfrentava o primeiro demérito.

A primeira tentativa, frustrada, esbarrou no desconhecimento técnico dos pecuaristas e, em outros casos, fora negligência mesmo.

Como o cerne da pecuária brasileira é a produção a pasto, instintivamente qualquer reprodutor, mesmo sendo taurino, era desafiado lá naquele sol ardido de 42ºC à sombra.

Para um Nelorão, bruto por natureza, até poderia ser brincadeira de criança, apesar de que sombra e água fresca nunca fizeram mal a ninguém e ajudam na reprodução.

Se você leu o primeiro post de PecNética, sabe que é a esta parte da história que me refiro quando eu uso o termo “tragédia anunciada”.

É óbvio que daria errado colocar um touro Angus, Hereford, Simental ou qualquer outro desambientado ao clima tropical para cobrir em pastagens extensivas, sem preparo especial.

Muita da genética taurina – até os dias atuais – tem origem em países de clima temperado, onde não raro os animais são criados embaixo de neve e expostos a baixíssima infestação de carrapatos.

Hoje, temos um taurino adaptado, vermelho, que você conhece muito bem e que vem fazendo estrondoso sucesso nos pastos brasileiros, justamente por preencher a lacuna deixada pelos europeus e o qual vamos ler aqui futuramente.

Pois bem, sem considerar o fator adaptabilidade, o pecuarista passou a testar com insucesso um sem-número de cruzamentos a pasto, produzindo uma infinidade de filhos de “tatu com cobra”.

Aqui também fica um puxão de orelha ao criador de gado oportunista que se aproveitou de um momento favorável do mercado para despejar nos frigoríficos caminhões e mais caminhões de animais cruzados com gado leiteiro, como sabidamente relembra o pesquisador Antônio do Nascimento Ferreira Rosa, da Embrapa Gado de Corte. Animais totalmente desprovidos de carcaça de qualidade.

Se ao menos fossem filhos de Gir, talvez haveria alguma chance de faturar algo com eles. Como resultado, a indústria cessou a compra de novilhos cruzados, decisão tomada sub judice dos zebuzeiros, que tentavam resgatar os volumes perdidos nos abates. Decisão que deixou na mão pecuaristas que faziam a lição de casa e tinham mais de 40 mil animais meio-sangue Nelore x Angus prontos para abate.

Ironia do destino, a técnica sucesso no mundo inteiro não alavancava por aqui. Então, dois fatores surgiram para reescrever a história do cruzamento industrial no Brasil, em meados de 2007: o engajamento de dois matadouros, em especial, e a chegada da inseminação artificial em tempo fixo, conhecida pelo seu acrônimo IATF. E vale lembrar que um pouco antes, em 2003, também nascia o embrião do atual Programa Carne Angus Certificada.

O falido frigorífico Independência elevou a um novo patamar a relação entre indústria e pecuarista, com a inauguração dos programas de bonificação de carcaça por qualidade, consolidados atualmente.

Bezerro meio-sangue Angus X Nelore, aqui iniciou a retomada do cruzamento industrial no Brasil

Bezerro meio-sangue Nelore X Angus, aqui iniciou a retomada do cruzamento industrial nos pastos do Brasil

Aproveitando a deixa e a saída do concorrente do mercado, o Marfrig criou seu sistema próprio de classificação de carcaças e o Programa Fomento Pecuária, posteriormente denominado Fomento Angus Marfrig, como bem lembrou Marcos Molina, dono da empresa, durante rara palestra no Global Business Fórum (GAF), dia 5 de julho.

O Fomento Pecuária seria a chave para garantir as carcaças com o rendimento e o acabamento necessários e, para o pecuarista ingressar, bastava ter vacada Nelore ou anelorada.

As matrizes eram cobertas obrigatoriamente por IATF, com R$ 45/animal sendo adiantados pelo Marfrig para custeio do sêmen, protocolos hormonais e demais encargos veterinários.

Os produtores recebiam 15% em cima do preço Esalq (a referência da época) para bezerro, 5% de bônus no macho terminado e @ de boi gordo para vaca (não se descontava o adiantamento concedido).

Não à toda, este modelo de aliança mercadológica se popularizou de tal maneira que inspirou outros frigoríficos a criarem seus próprios modelos de parceria e consolidou a IATF.

A técnica cresceu tanto que já representa de 70 a 80% das mais de 13 milhões de doses comercializadas no Brasil, segundo Carlos Vivacqua, presidente da Asbia.

Assim começou a retomada do cruzamento industrial no País, após quase ser “proibido”. Mas, caro leitor, tenha certeza de que não basta miscigenar raças, afinal “Heterose não faz milagre”, tema do próximo post de PecNética.

Também fica a dica: não é só o Angus que faz carne de qualidade!

Comentários

  1. RespostaDiego Ramírez
    Amei esse artigo, muito informativo e interessante, agora entendo algumas coisas muito melhor!
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Diego, Obrigado por sua visita. Essa também é a intenção do Blog PecNética, relembrar alguns fatos marcantes que colaboraram para o aquecimento do mercado. Espero vê-lo por aqui mais vezes.
  2. RespostaCida Muniz
    O campo da pecuária tem um vasto território a ser percorrido e cheio de oportunidades para quem prefere, como bem lembrou o publicitário Nizan Guanaes, no #gaf2016, enquanto uns choram, outros vendem lenços. Os pecuaristas "vendedores de lenços" terão sucesso cada vez maior.
    • RespostaAdilson Rodrigues
      É, Cida, não adianta chorar. Precisamos é estudar como melhorar o nosso negócio e, principalmente, a comunicação, como bem lembrou nosso amigo Nizan.

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