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Genética contra o carrapato

Genética contra o carrapato

Acompanhando a Expointer, uma feira onde a paixão pela pecuária salta aos olhos, escolhi o tema do post desta semana: carrapato. Um trabalho da Embrapa Pecuária Sul identificou populações resistentes a todas as classes de produtos existentes de acaricidas, principalmente em virtude da resistência cruzada.

A situação é arrepiante e, acredite, é uma realidade cada vez mais próxima do seu plantel. Não à toa, os carrapatos já causam prejuízos na ordem de 3,5 bilhões de dólares ao bolso dos pecuaristas brasileiros. Nesta guerra sem fim, o criador precisa utilizar todo o arsenal disponível, principalmente quem cria taurinos, os mais suscetíveis às infestações.

Lembro que em meados de 1994 a Conexão Delta G lançava o embrião de um projeto pioneiro no Brasil: a seleção de bovinos resistentes ao carrapato. Idealizado a partir de uma bucólica percepção do vaqueiro, em reconhecer se uma vaca ou terneiro têm ou não “sangue doce” para o paladar do ácaro, vim a conhecer o projeto, de fato, mais nos anos 2000.

Até pensei que andava estagnado, mas levantando a programação da Expointer me deparei com um release de uma coletiva de Imprensa para o lançamento do 15° Sumário de Touros Hereford e Braford. Fui in loco conferir. Com 300 touros ranqueados das duas raças, para minha surpresa, a grande novidade da publicação é a inserção da dep genômica nas características de adaptação e caracterização.

Avaliação Genômica para Características de Adaptação e Caracterização Racial de Touros Hereford e Braford 2016

Entre elas, a resistência ao carrapato – trabalho possível através de uma parceria com a Geneplus Embrapa. Chamou a atenção que o pequeno empurrão dos marcadores moleculares elevou a acurácia desta dep para 60% no Braford e 30% no Hereford, em média, segundo estimativa do pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, Fernando F. Cardoso.

A expectativa do especialista é aumentar a do Hereford para também 60% daqui dois anos. Lembro que a acurácia indica o grau de confiança no atributo avaliado e pode ser influenciada, no caso do Sumário Conexão Delta G, pela quantidade de informação existente do touro e seus parentes no banco de dados e pelo número de rebanhos onde foi testado.

Saiba que antes da contribuição da tecnologia de DNA o esforço dos técnicos, digamos, era um pouco insano. Tiveram de contar teleógena por teleógena (a fêmea ingurgitada do carrapato, também conhecida por mamona), em mais de 12.500 laterais de animais infestados, de forma artificial, com 2 mil larvas. “O parâmetro do trabalho, sempre, é o grau de resistência obtido pelo gado zebu”, explica Eduardo Eichenberg, presidente da Conexão Delta G.

Pelo fato de os ascendentes dos taurinos não terem conhecido o carrapato em seus países de origem, hoje são os mais suscetíveis a ele. Todavia, sempre há uma pequena parcela da população que resiste e a partir dessa é que a seleção dá a sua contribuição.

Mas, afinal, o que é a resistência ao carrapato?

Quem responde é Claudia C. Gulias Gomes, médica-veterinária e pesquisadora da Embrapa Pecuária Sul: “A resistência ao carrapato é uma resposta imune do organismo do bovino a antígenos presentes na saliva do parasita, que desencadeia uma reação inflamatória no local da fixação. O quadro prejudica a alimentação das larvas e ainda pode causar injúrias e alterações comportamentais nas mesmas”, define.

Ou seja, é uma reação do sistema imunológico do bovino que inflama a pele e dificulta a fixação da larva no animal. E aquelas que sobreviverem ainda vão apresentar perda de peso e produzir menos ovos. O grau dessa resposta imunológica varia entre as diferentes raças e indivíduos. As primeiras observações de bovinos com essas particularidades iniciaram no Brasil em 1941 e na Austrália tornou-se um manejo constante.

Eduardo Eichenberg, presidente da Conexao Delta G e Fernando Cardoso, pesquisador da Embrapa Pecuaria Sul, apresentam o Sumário e a Avaliação Genômica de touros HB

Eduardo Eichenberg, presidente da Conexão Delta G, e Fernando Cardoso, pesquisador da Embrapa Pecuaria Sul, apresentam o Sumário e a Avaliação Genômica dos touros HB

Comprimento, cor e espessura do pelame do animal também se mostraram atenuantes. Animais de pelo claro, por exemplo, são menos atrativos ao micuim (larvas do carrapato). Agora, independente da decisão em selecionar ou não bovinos resistentes ao temido Boophilus microplus, a dica é não cair na conversa do revendedor.

A Secretaria da Agricultura, Pecuária e Irrigação do Rio Grande do Sul constatou que 50% das vendas de antiparasitário ocorrem através da indicação do balconista. Não que ele seja mal intencionado. É que no Brasil existem 233 produtos da categoria registrados junto ao Sindan (Sindicato Nacional das Indústrias de Produtos para Saúde Animal), mas, eles se dividem em apenas seis classes químicas.

É muito provável trocar seis por meia dúzia, escolhendo o mesmo princípio ativo com nome comercial diferente ou ainda se deparar com uma associação de moléculas sem eficácia. O manejo correto é fazer o biocarrapaticidograma antes da aplicação de qualquer produto. A quem interessar, tratei o assunto em detalhes na Revista AG, clique e leia.

Comentários

  1. RespostaPedro Gilberto Silva de Morais
    Outra ferramenta a ser utilizada é a homeopatia, comprovada por trabalhos da Drª Cecília Verissimo do IZ de Nova Odessa-SP e trabalhos orientados pelo Dr. Edmundo Benedetti da UFU em Uberlândia que ´demonstraram em vacas Girolando que realmente reduzem as populações de carrapatos.
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Pedro, também já se descobriu que alguns fungos são letais ao carrapato, assim como o uso do neem tem mostrado bons resultados, mas o intuito do post foi mostrar a contribuição da genética no controle das infestações. Quanto mais armas o pecuarista utilizar melhor.

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