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Heterose não faz milagre

Heterose não faz milagre

Sinto falta… Hoje, mesmo após a retomada do cruzamento industrial, é difícil vermos a heterose figurar entre os principais temas abordados nos dias de campo.  Particularmente, acredito ser uma discussão  contextualizada com o momento que vivemos.

É bem verdade que caiu no conhecimento comum, mas será que ela vem sendo explorada de forma correta pelos pecuaristas? No passado, a discussão girava em torno da crença de que apenas misturando raças ou linhagens a mágica ocorreria nos números da propriedade.

Em parte, estava correto. A heterose ou vigor híbrido, que ainda pode ser definida como choque de sangue entre as diferentes raças utilizadas em um cruzamento, sozinha, já é capaz de proporcionar um salto quantitativo nos índices produtivos do rebanho.

É uma equação muito simples. A mãe natureza extrai para o híbrido gerado as melhores características dos seus progenitores. E quanto maior o distanciamento sanguíneo, mais superior será o indivíduo em comparação à média dos seus pais.

É por este motivo que um bezerro meio-sangue zebuíno/taurino – nosso formidável F1 – caiu nas graças da pecuária de resultados. Possui qualidade de carne melhor que a da mãe-zebu e maior rusticidade e adaptabilidade em relação ao pai de ascendência europeia.

Entretanto, de tão simples torna-se perigosa em mãos descuidadas! Não é porque cruzou que o milagre acontece.

É improvável agregar aquelas três ou mais arrobas almejadas no peso ao abate do lote – oito meses mais cedo – se a genética utilizada no cruzamento realizado não permitir margem para tanto.

“Heterose não faz milagre. Temos de considerar também o efeito aditivo [complementar] tanto entre as raças utilizadas quanto entre os indivíduos escolhidos”, advertem Gilberto R.O. Menezes e Roberto A.A. Torres Júnior, pesquisadores da Embrapa Gado de Corte, em um recente artigo assinado.

Características ligadas à adaptação e reprodução tendem a apresentar os maiores acréscimos enquanto aquelas relacionadas ao desempenho e à carcaça são menores

Características ligadas à adaptação e reprodução tendem a apresentar os maiores acréscimos enquanto aquelas relacionadas ao desempenho e à carcaça são menores

Ou seja, se uma das raças possuir desempenho muito inferior ao da outra, será difícil o bezerro superar a média da mãe ou do pai mais produtivo. Igualmente, a regra se aplica aos indivíduos, isoladamente.

Note, caro leitor, que temos dois agentes envolvidos: o fator raça e o casal de animais escolhidos para o acasalamento em si.

E ainda tem outro agravante… além da genética ser aditiva, é preciso garantir uma dieta diferenciada à “fábrica de carne” que se acabou por criar. Flancos de capim em cima de argila não oferecem condições para que o “modo-turbo” dos genes seja acionado.

Segundo os geneticistas mais conservadores, em via de regra, a heterose é responsável por incrementos na ordem de 15% em produtividade. Já os pesquisadores da Embrapa Gado de Corte são mais audaciosos e dizem que os ganhos podem atingir até 30%.

Eles explicam que características ligadas à adaptação e reprodução tendem a apresentar os maiores acréscimos enquanto aquelas relacionadas ao desempenho e à carcaça são menores. Para o zootecnista Alexandre Zadra, o ganho em peso de um meio-sangue pode ser 15% a 20% maior que o de um zebu puro.

“A forma de se obter o máximo benefício do cruzamento industrial é conduzi-lo com animais de qualidade genética superior. O criador que falha ao não considerar a avaliação genética contribui para o fornecimento de gado de baixo desempenho e um menor interesse na raça envolvida”, conclui o pesquisador Gilberto Menezes.

Por esta razão, não basta cruzar, é necessário enxergar a técnica com uma visão holística. Conhecer se o produto cruzado tem mercado, se vão pagar mais pela @ e se existe acesso a insumos importantes como suplementação, fertilizantes e mão de obra qualificada.

Quem entender (e aceitar) o proposto está apto para o próximo passo: a produção de novilho precoce, destaque do próximo post.

Comentários

  1. RespostaAndre P C Gomes
    Há anos vinha cruzando Nelore com Angus e em paralelo selecionando Nelore. Ao passar dos anos a diferença veio caindo. Era de 18% a 20% e quando eu parei (2014) estava em torno de 8%. Alem do mais coloco mais garrotes nelore em uma mesma área com conversão melhor e rendimento também. Alem do prejuízo menor nas cercas ,os cruzados brigam mais.
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, André, obrigado pelo comentário. É sempre muito oportuno apresentar o outro lado da moeda. Como você vinha melhorando os dois grupos genéticos simultaneamente, precisaríamos avaliar se estava selecionado para temperamento também, pois essa é uma qualidade genética importante nesses casos. Da mesma forma, além do diferencial de peso, precisamos ponderar a qualidade de carne e a precocidade de abate em ambos os grupos, caso você tenha um frigorífico que pague mais por animais cruzados. De qualquer forma, no fim, a melhor genética é aquela que se adequa a nossa realidade de produção. Espero vê-lo por aqui mais vezes.
  2. RespostaRonni Peterson
    Parabéns pelo post!!
  3. RespostaEudes Rogero
    Gostaria de saber se o cruzamento de novilhas F1 Angus com boi PO Senepol??
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Eudes, Obrigado pela visita e pelo questionamento.Não sei se entendi bem sua pergunta, mas caso não seja isto, por favor, entre em contato novamente. Sabemos que o Senepol é adaptado ao clima tropical, entretanto, ele não deixa de ser taurino, ou seja, a heterose vai ser mais baixa do que qualquer um deles com gado zebuíno. Conheço bastante gente que cria Senepol, mas maior uso da raça vem sendo em cima de vaca Nelore para produzir o F1 ou em cima de vaca meio-sangue Angus/Nelore para formar o tricross, onde em ambientes de dietas privilegiadas são produzidos bezerros de 13 meses e 20@. Seria esta sua dúvida? Espero ter ajudado.

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