-Blog PecNética- - Aqui o touro não é de boiada!

Nem tudo que nasce é touro

Nem tudo que nasce é touro

Por estes dias visitei a Fazenda Angélica, em Americana, interior de São Paulo, e fui recebido por Daniel Steinbruch e pelo Senhor Odílio Marin, respectivamente dono e gerente da propriedade, bem como pelo leiloeiro Eduardo Matuck, também velho de guerra na pecuária.

A prosa correu solta e apesar da pouca idade – Daniel tem apenas 24 anos – mostra uma perspicácia e um tino empresarial vistos em poucos criadores. Na verdade, eu o conheci em meados de 2009, quando ele era recém-chegado na raça Brahman, mas do plantel restou um banco de sêmen e algumas vacas que utiliza no cruzamento com Angus no Mato Grosso.

Ele ainda toca o gado holandês da família, cuja seleção já completou 40 anos, também um dos primeiros importadores de Dorper da África do Sul, sem falar ainda da criação de Suffolk. A nova aposta do jovem pecuarista é a raça nipônica Wagyu. E a este ponto eu queria chegar.

Com o Wagyu, ele pretende verticalizar a cadeia produtiva da carne bovina, ou seja, fazer uma pecuária do pasto ao prato. Apesar de necessitar de um maior investimento, a grande sacada desse tipo de negócio é que o pecuarista morde o lucro que ficaria com o frigorífico e o varejo, donos de margens entre 25% e 50% (já chegou a 100%), atualmente.

O programa visa produzir carne com a marca Kobe Premium. Tem produção própria e abre-se a parcerias com pecuaristas interessados em fornecer matéria-prima. Traduzindo, Daniel compra a bezerrada dos parceiros com ágio de 1,6 a 2,2 VEZES a arroba, dependendo do grau de marmoreio.

Bom pra ele, que aumenta escala, e para os fornecedores, que faturam bonificação bem acima do teto de mercado, lembrando que diferente do Programa Carne Angus Certificada, o Kobe Premium só aceita animais PUROS. Aliás, assim são as verdadeiras marcas  premium Wagyu.

É por este motivo que o quilo da carne vale 1.000 dólares no Japão, 300 reais no Brasil e 300 euros na União Europeia. A Fazenda Angélica possui sua reserva genética, mas sabe que a engrenagem do negócio Wagyu somente gira se repassar bons animais aos parceiros. “Nem tudo que nasce é touro. Por este motivo, meus parceiros contam com a melhor genética do meu plantel”, afirma Daniel Steinbruch.

Mas nem todo mundo pensa desta forma e repassa “aquele” animal sem muita serventia na propriedade. Muita raça degringolou por se repassar refugo a quem necessitava de um bom reprodutor ou uma boa matriz para produzir carne bovina. Qualquer bezerro era aspirante a touro.

Uma pena, pois no fim das contas quem SEMPRE paga o pato é a raça. E todas as raças têm sua importância e seus diferenciais. Um sem-número de criadores deixaram boas raças por causa deste motivo.

Claro que quando a raça é nova e está em plena ascensão, a demanda é alta e fica difícil resistir a uma boa venda, porém, se pouco sabe da produtividade dos filhos do casal, mesmo sendo o melhor acasalamento, é preciso deixar claro que a promessa de reprodutor pode não se confirmar.

Numa negociação assim podem perder todos. O comprador pode adquirir um “piorador” genético e o vendedor desacreditar a raça por 5, 10 ou 15 anos, e naturalmente perder mercado e decidir partir para um novo investimento. Só que desfazer o estrago à raça pode demorar outros 20 anos.

Também existe o argumento de que se não tem avaliação genética o animal é um “boi de boiada”. Faz sentido, mas hoje o PecNética para por aqui. Esta é uma pauta muito boa para um próximo post. Fica o aplauso para o Daniel Steinbruch.

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