-Blog PecNética- - Aqui o touro não é de boiada!

Sem critério, líder do ranking seria castrado

Sem critério, líder do ranking seria castrado

Calma, ávido leitor, não se espante. O título ácido é apenas para realimentar uma velha discussão. Agir por impulso do marketing no momento crucial da decisão por determinado touro ou sêmen pode ser insalubre. Critico o fato de ainda hoje prevalecer a cultura de que o campeão é sempre o melhor em tudo.

O receptáculo responsável por resolver todos os problemas de um rebanho ou plantel. Aliás, equívocos como esse descredenciaram a pista como exclusiva formadora de touros de central. Traçando paralelo com o futebol, um touro campeão seria como Neymar Jr. Um ótimo goleador, mas talvez menos defensor e não tão bom goleiro.

Ou seja, o jogador, mesmo aquele talento nato, não vence campeonato sozinho. Contribui para o time. O touro, por sua vez, contribui para o plantel. Então, quando optar por um bom reprodutor, tenha ciência de suas deps e, principalmente, aquilo que deseja corrigir, potencializar ou eliminar no rebanho.

Dito isso, chegamos ao ponto-chave que instigou sua insaciável leitura até este parágrafo: Basco da Naviraí. O desempenho individual do animal e o da sua progênie nos julgamentos impressionam de tal forma que ele é líder do Ranking Nacional de Reprodutores Nelore pelo quarto ano consecutivo.

E Basco merece estar no topo. Como bem definiu Arnaldo Manuel de Souza Borges, o Arnaldinho, presidente eleito da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, em entrevista a mim, o reprodutor possui o modelo ideal para produção de carne. Tem tamanho moderado, ótimos acabamento de carcaça e arqueamento de costelas.

Imprime precocidade de abate e volume carcaça fora do comum a uma bezerrada sempre muito homogênea e ainda com cabeça pequena. “De tão uniformes, parecem uma fornada de pão de queijo”, brinca o dirigente. Elencamos aí atributos suficientes para tornar o reprodutor um fenômeno do marketing. Portanto, cuidado com as entrelinhas.

Com tantos diferenciais, Basco da Naviraí seria touro para qualquer vaca?

O caro leitor pode estranhar, mas a resposta é um sonoro NÃO! Da mesma forma que transforma bezerros em máquinas de produzir carne, imprime graves defeitos com a mesma facilidade. É baixo em fertilidade e negativo em habilidade materna, duas das características de maior impacto econômico na pecuária.

Nos sumários Embrapa/Geneplus e ANCP, por exemplo, possui deps -4,10 e -5,97, respectivamente, no maternal (P120 e MP 120), ambas com acurácia em torno de 80%.

"Aprendi com o meu pai que no melhoramento sempre eliminamos um defeito, nunca o indivíduo", diz Arnaldinho

“Aprendi com o meu pai que no melhoramento genético sempre eliminamos um defeito, nunca o indivíduo”, diz Arnaldinho

E quem apontou essas falhas foi justamente Arnaldinho, sendo prontamente crucificado. “Não é porque é líder do Ranking que pode ser usado em qualquer rebanho. Se você acasalar Basco com vacas de baixa fertilidade, serão gerados bezerros subférteis. A questão é administrar o acasalamento”, explica Arnaldinho. A forma de corrigir é acasalá-lo com matrizes altamente férteis e com linhagens de boa habilidade materna. Resolve-se a questão já na primeira geração de filhos. “Aprendi com o meu pai que no melhoramento sempre eliminamos um defeito, nunca o indivíduo”, relembra o presidente da ABCZ. Entretanto, outros pesquisadores consideram serem necessárias duas ou três gerações para que se corrija habilidade materna.

Outra premissa é que a genética nunca mente. Arnaldo relata que durante a ExpoZebu um criador se aproximou dele e no bate-papo queixou-se de algumas vacas lindas, carnudas e ruins demais de leite. Ao puxar o pedigree das mesmas, Arnaldinho descobriu tratar-se de filhas de Paysandu, pai de Basco.

O filho herdou o defeito do pai e da avó paterna. Lara da Naviraí, mãe de Paysandu, é uma vaca igualmente fraca de leite, problema também trazido da linha paterna.

Veja só como são as coisas! E essa é uma seleção a qual admiro muito e tenho profundo respeito, por unir avaliação genética e morfologia de forma exímia, entretanto, prova que não existe touro perfeito. Podemos dizer que o máximo que se vai achar é o reprodutor perfeito para cada propriedade.

Esclarecido o título sensacionalista, o problema não está no touro. Está na forma como ele é utilizado. Em breve, PecNética tratará da supervalorização do top 0,1%.

Comentários

  1. RespostaGilberto Eufrásio do Couto
    Para mim não serve. Tem um vídeo da Chácara Naviraí, onde que se fala que não se deve colocar gens indesejaveis dentro do rebanho. Como que se coloca gens de baixa fertilidade e baixa habilidade materna no rebanho.
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Gilberto. Obrigado por sua visita. Você tem razão e a grande maioria dos assessores técnicos compartilha da sua opinião. Mas também tem o outro lado: apesar de apresentar características indesejáveis, outro grupo se apoia na tese citada no post de que se pode corrigir tais características para agregar as demais de interesse, ainda na primeira geração. Talvez se apegando ao fator de herdabilidade de cada atributo genético. O post mostra os dois lados, cabendo a cada pecuarista tomar a sua própria decisão. Espero ter acertado a medida.
  2. RespostaBárbara Gonçalves
    Parabéns pelo artigo, foi um dos melhores que li sobre este assunto. Um abraço!
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Bárbara. Obrigado por sua visita e comentário. Li algumas notícias no seu blog. Parabéns pelo trabalho!
  3. RespostaFernando Tannus
    É gancho. A fertilidade é o primeiro quesito de seleção de um criatório. É a fertilidade que vai garantir um maior número de quilo de bezerros desmamados. Não adianta padronizar bezerrada, bezerros pesados se a quantidade de vacas que parem é baixa. No final das contas o que é mais vantajoso? 200 vacas desmamando 120 bezerros de 210 kg ou 200 vacas desmamando 160 bezerros de 180 kg?
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Fernando, obrigado por sua visita. Mas, há quem defenda a correção desses defeitos já na primeira geração de filhos. O risco ficará por conta do pecuarista ou do profissional que conduz a seleção.

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