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Touro velho não faz pecuária boa

Touro velho não faz pecuária boa

Ainda hoje há uma boa reserva de sêmen de touros quase lendários, muitos dos quais avaliados acima de R$ 350 a dose. Aproveitando um bom bate papo com o médico-veterinário José Bento Sterman Ferraz, para uma entrevista pingue-pongue para a Revista AG, não perdi a oportunidade e o questionei sobre o assunto.

Contundente, o mestre e doutor em Genética e professor titular da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP não poupou críticas. Segundo ele, comprar uma genética dessa – e pagar caro por ela – é o mesmo que rasgar dinheiro. Isso, claro, pensando no efeito do melhoramento genético do rebanho.

Eu explico: seria o equivalente a desembolsar uma boa grana por um VW Santana 1996 do que por um Honda Civic, um Toyota Corolla ou ainda um Chevrolet Cruze, só porque o velho Santana era um dos melhores carros daquele tempo. Lembro que não falamos aqui da paixão de um colecionador pelo citado veículo e sim sobre a questão da potência e da tecnologia envolvidas no modelo.

“Falamos de touros que estariam com 20 anos de idade. Todos ganhadores de peso, critério de eleição na época, mas que acabaram gerando animais tardios tanto sexualmente quanto em acabamento de carcaça”, afirma Ferraz. Eram espetaculares, mas, hoje, estão incompatíveis com as necessidades da pecuária moderna, que exige, acima de tudo, precocidade de abate.

E esta dura crítica não foi feita a esmo, se fundamenta no fato de tal material genético continuar sendo utilizado em muitas das fertilizações in vitro (FIV). E como tudo na pecuária possui maturação mais lenta, falhas cometidas na escolha do acasalamento poderão demorar, pelo menos, oito anos para serem devidamente corrigidas.

“O erro de escolher touros que deixem filhas mais tardias e menos produtivas vai se prolongar por muitos anos, pois essas serão as novilhas de reposição. Vão ficar de oito a dez anos no rebanho, produzindo mais filhas inadequadas ao sistema de produção atual e à rentabilidade da propriedade”, esclarece.

Nesta entrevista exclusiva, Ferraz, entre outros pontos, também critica a supervalorização de touros provados nos leilões, como vem ocorrendo há alguns anos, e o top 0.1%. Aponta que um reprodutor adquirido pelo valor de R$ 2 milhões dificilmente se paga, pois precisaria vender cerca de 100 mil doses de sêmen ao valor unitário de R$ 20 para quitar o investimento inicial. Cálculo que não contabiliza os custos envolvidos na manutenção do animal. E raros são os reprodutores que atingem tal marca.

Então, fica o recado do especialista: cuidado na escolha do sêmen que vai na FIV. Sugiro a leitura da entrevista na íntegra, pois tem muitos pontos interessantes a quem busca uma pecuária de resultados. Acesse clicando aqui.

 

Comentários

  1. RespostaMarcos tadeu
    Nem todo filho e melhor do que os pais mas se escolhermos os melhores para o que queremos estaremos fazendo um melhoramento com foco definido. I
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Marcos. Acho que este é o cerne do melhoramento genético. Um abraço e obrigado pela sua visita!
  2. RespostaAdalberto Pereira Filho
    Acredito que em pleno século 21, não dá mais para ficar olhando para trás pensando em se fazer o futuro. Gostei muito da entrevista com o professor. O que acontece é que os animais que foram tidos como genearcas no passado, na sua grande maioria, possuíam características fenotípicas que seguiam os critérios de julgamento da ABCZ, que ao meu foi na verdade um pioramento genético. Pois se preconizavam os animais pernaltas, com cabeça bonita e orelhas delicadas. Procurava sempre quebras de recorde peso. Então não seria melhor selecionarmos elefantes? Os estudos mostram que independente da raça, se é taurina ou zebuina, os animais de porte médio, são os mais econômica viáveis. E também, os animais mais próximos do chão, assim como os taurinos como por exemplo a raça Angus. Animais que possuem menos pernas e mais costelas. Esse é o modelo animal que devemos procurar, pois esses são os mais produtivos e precoces tanto na questão de terminação quanto na questão da reprodução como bem lembrado falou o professor. No final da década de noventa e no início deste século, mais de 85% da venda de sêmen da raça Nelore comercializado no país, era de animais chamados Nelore elite ( padrão ABCZ). E menos de 15% do Nelore prova sem cabecinha e orelhinhas bonitinhas porém muito mais funcional e produtivo. Hoje se sabe o senário é exatamente o inverso, mais de 85% do sêmen comercializado da raça Nelore no Brasil é dos touros chamados Nelore prova. Na minha opinião o verdadeiro Nelore moderno. Agora claro que dentro do melhoramento genético , existem os acasalamentos dirigidos que pode-se sim buscar uma genética do passado. Mas com muita clareza no objetivo que se almeja alcançar. Do ponto de vista econômico salvo um acasalamento estritamente pontual e dirigido jamais será viável um sêmen de R$300,00 reais, principalmente em se tratando de pecuária de corte.
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Adalberto. Acho que você resumiu bem todo o contexto histórico da pecuária brasileira e mostra dicas de onde precisamos chegar no futuro. Obrigado pela visita e comentário. Espero vê-lo mais por aqui. Um abraço, Adilson
  3. RespostaOrlei
    O touro acima de R$ 300.00 referido seria qual? Faulad ou Basco vangloriado em uma publicação do site anteriormente ? A nível de informação o touro que ilustra a postagem é o Backup amplamente usado na atualidade como melhorador, filho de Gabinete do IZ nascido em 87 este filho de Caduco nascido em 83. O recordista de área de olho de lombo na raça Nelore é filho de um touro nascido em 68, filho de um touro da década de 50. "Nem tudo que é antigo serve e nem tudo que é atual vale 1 real"
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Orlei, obrigado por sua visita e comentário. Muito bem colocado. Vou postar aqui alguns esclarecimentos quanto a suas dúvidas. O valor de R$ 300 não se refere a um touro específico e sim a alguns touros ainda disponíveis, conforme o José Bento disse. Quanto ao Basco, ele não foi vangloriado, apenas foi mostrado que sem critério ele seria CASTRADO, segundo palavras do próprio Arnaldinho. Aliás, o problema é sempre o critério. Sabemos de criadores que fazem ótimos touros com sêmen de touros antigos, mas eles sabem exatamente onde querem chegar, o que digamos não é a realidade do mercado. O próprio José Bento faz um comentário bem interessante onde ele diz que usar touros ditos velhos é reconhecer que a pecuária não evoluiu. É algo que nos fazer parar para pensar, não acha? A foto ilustrativa é do Backup sim, mas é meramente ilustrativa, era a única de touro mais erado no acervo. Não, necessariamente, o conteúdo da matéria tem a ver com ele, apesar de ser um touro de 15 anos. Eu me lembro quando ele foi lançado na bateria da então Lagoa da Serra, pois eu trabalhava na assessoria de imprensa dela. Um ótimo animal, por sinal, mas que deixou uma enorme dúvida se ele foi reconhecido por suas qualidades ou pelo pai que todos, supostamente, achavam que ele tinha. E concordo com você, nem tudo que reluz em prova ou PO é ouro. Vide meu post "Armadilhas do TOP 0,1%". Por isso, a proposta do PecNética é também trazer essas discussões à tona, justamente o motivo que trouxe você aqui para que outros pecuaristas vissem sua opinião. Logo teremos o outro lado da moeda. Espero vê-lo mais vezes por aqui. Um abraço, Adilson
      • RespostaOrlei
        Ai falou a palavra chave "critério" o problema é que na matéria o critério tem 1 peso e 2 medidas o Dr José Bento deveria ter tido critério e o site deveria ter tido critério, no fim só faltou o critério e sobrou lob. O que o José Bento não é capaz de reconhecer e por isso falou um monte de {.....} é que tem mais Dr matando que salvando pois se este critério adotado nas afirmações fossem se quer de perto verdadeiros ano pós ano um monte de gente não vivia tomando rasteira marqueteira de sumários e vendendo no prejuízo fêmeas de reposição que deveriam ser superiores como fundo assim como reprodutores, a de mais que bom que o filho fosse melhor que o pai que maravilha seria, o pessoal do Gir leiteiro amparados por um dos melhores programas de avaliação não estariam usando um mesmo líder por 10 anos seguidos e este não seria filho de um touro que nasceu em 83, existem vários e vários e vários outros exemplos.
        • RespostaAdilson Rodrigues
          Calma, Sr. Orlei, vamos conter os ânimos para não perder o foco do debate. Se você quiser provar que tudo o José Bento diz é besteira, fica o espaço aberto para você também. Concordo quando você diz que tem criadores tomando rasteiras nas provas, mas você também esqueceu de mencionar as rasteiras que os pecuaristas tomavam ao perder vacas e bezerros pelo tamanho exagerado na cria. Lembro de um criador comentar no fim da década de 90 orgulhoso que precisou de três pessoas para realizar um parto. Agora, como fica isso na pecuária extensiva? Os dois universos têm seus dilemas, mas creio que unir o melhor dos dois mundos abrirá novos horizontes à pecuária brasileira. As mudanças propostas pela própria ACNB nos julgamentos a partir do ano que vem e que culminam em 2020 mostram que tal objetivo é possível.
  4. RespostaMarco Aurelio Penido
    Touros nelore antigos são tão bons quanto aos utilizados hj! A unica diferença é que os atuais estão sempre em cima de muito marketing ! Tipo grife.
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Marco, marketing demasiado em situações como essa é um problema passado, presente e provavelmente futuro.
  5. RespostaJose Ricardo Rezende
    Concordo no conjunto com o Bento, com ressalvas. A seleção avança e se o trabalho for bem feito, na média, as novas gerações superam seus progenitores. O sábio é bebermos ao máximo dos avanços geração após geração. Mas surgem animais singulares ao longo do tempo, os chamados geriarcas da raça, que conseguem se manter no topo por muito tempo. E as vezes buscamos alguma característica abandonada por alguma razão no trabalho de seleção e ai o jeito é voltar atras.
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Realmente, José Ricardo Rezende, tem esse lado também. Obrigado pela visita e comentário. Espero você mais vezes aqui. Abraço, Adilson
  6. RespostaJosé da Rocha Cavalcanti
    Perdoem-me mas não concordo com o eminente Prof. Dr José Bento Sterman Ferraz quando afirma que "Touro velho não faz pecuária boa" numa entrevista à revista AG. Considero também inadequada a comparação com um carro antigo; em se tratando de genética, este argumento é discutível. Na minha opinião, no futuro que não é tão próximo, teremos através da genômica as justificativas razoáveis para o acasalamento com touros nascidos duas décadas atrás principalmente para corrigir vieses indesejáveis na trajetória do atual melhoramento genético.
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, José da Rocha Cavalcanti, muito obrigado pela sua visita. Como estão as coisas no Nelore Irca? Diga-me, por gentileza, quais seriam esses vieses indesejáveis aos quais você se refere? Grande abraço e obrigado pela visita!
  7. RespostaJosé Carlos Lopes
    Bela entrevista No gado comercial produzimos alimentos para clientes cada vez mais exigentes Sem dúvida nenhuma, através do melhoramento genético isto é possível Temos que buscar os melhores,em todos quesitos, sejam ponderais e ecomicamente viável. As margens estão estreitas,então,precocidade é fundamental. Abraços
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, José Carlos Lopes, realmente estamos entrando numa fase onde a pecuária deverá ser cada vez mais eficiente e competitiva, então, a escolha da genética é primordial. Obrigado pelo comentário e pela visita. Um abraço, Adilson
  8. RespostaPAULO R SALGADO
    Em Zootecnia se espera que cada nova geração seja melhor que a anterior, sinal que está ocorrendo um progresso genético....
    • RespostaAdilson Rodrigues
      É nisso que eu acredito também, Paulo. Um abraço e obrigado por sua visita. Espero vê-lo por aqui mais vezes.
  9. RespostaMateus Arantes
    Se os programas forem sérios no objetivo isso verdade, mas sabemos que não é bem assim. Tem muita linhagem atinga sendo resgatada, principalmente no gado PO por equívoco nas características selecionadas.
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Mateus, acho que você se refere à fertilidade, habilidade materna e qualidade de carcaça. Pode haver linhagens antigas que ajudem nessa questão, mas acredito que muitos touros mais novos, inclusive, dessas mesmas linhagens podem ser uma solução melhor, por ser encontrada em maior quantidade. Também prefiro acreditar que o filho sempre deve ser melhor que o pai quando o assunto é melhoramento genético. Abraço e obrigado pela visita.
  10. RespostaWilly Groot
    Muito bom o artigo, e valida que os criadores pensem e reflitam sobre o assunto!
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Willy, como vão as coisas no Bonsmara? Esse post tem gerado um bom debate e acredito que isso seja necessário, atualmente, posto que a pecuária precisa ser cada vez mais eficiente. Grande abraço e obrigado pela visita.

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