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Tricross, o atalho para o superprecoce

Tricross, o atalho para o superprecoce

Peço licença aos meus mentores que ensinaram que tricross é um neologismo e, por este motivo, o correto seria usar a expressão inglesa Three Crossover, termo original para designar o cruzamento triplo. Apesar de não existir, faço coro ao time de zootecnistas, médicos-veterinários e pecuaristas de todo o País e adoto o tricross mesmo, o mais curto caminho para a produção do novilho superprecoce.

Como discutido no post Do tatu com cobra ao boi de qualidade, hoje os pecuaristas contam com uma pedra fundamental muito interessante para construir suas fábricas de carne, que é a vaca meio-sangue Nelore/Angus, nossa estimada F1. Existem muitas outras opções que também geram ótimo resultado tanto no pasto quanto no confinamento, mas estas, em especial, já somam 3 milhões de cabeças na pecuária nacional.

Com faro apurado e a escolha correta da terceira raça, além de contar com boia farta no cocho, produzir bezerros terminados com 20@ aos 13 meses parece simples. Só que erros sutis podem tornar essa brincadeira onerosa, ainda mais que a saca de milho não ficará abaixo dos R$ 45-50,00, de acordo com previsões da Abramilho. Agora eu pergunto, qual seria a raça apropriada para usar em cima da meio-sangue?

Esta é uma escolha complexa que depende de diversos fatores de ordem climática, de manejo e até comerciais. Calor e umidade (e falta dela) podem influenciar negativamente o desempenho do produto final. Idem para o pasto, que se não for bom não supre um mínimo de proteína, e o sempre soberano mercado. Se o frigorífico não desembolsar uma boa bagatela fica difícil ser persuadido a investir em uma produtividade quase industrial.

Tecnicamente, temos alguns gargalos, a começar pela própria heterose. O caro leitor lembra-se do post Heterose não faz milagre, sucesso no PecNética, com mais de 800 views e 33 mil pessoas atingidas nas redes sociais? Quanto maior a distância dos genes entre as raças utilizadas maior será a média produtiva do bezerro em relação aos seus pais. Assim ocorre com a meio-sangue, porque temos 50% de zebuíno e 50% de sangue taurino.

Se voltar um touro bos indicus, teremos 75% de sangue zebu. Ganha-se em rusticidade, adaptabilidade, habilidade materna e perde-se em conversão alimentar, velocidade de acabamento e qualidade de carne. O inverso também ocorre. Com um touro bos taurus entrando na jogada, 75% do sangue será taurino, com melhor carcaça, ganho em peso, acabamento rápido e qualidade de carne e piores adaptabilidade e resistência a ecto e endoparasitas.

Esse ponto ajuda a definir, dentro das condições de cada propriedade, como esse produto será gerado e para onde será direcionado: se no clima mais quente/seco ou mais temperado/úmido, se a pasto ou em confinamento e ainda se novilho precoce ou bonificação Premium. Para sair desta sinuca de bico, intuitivamente, meu estimado leitor pensou em um taurino adaptado ou um bimestiço (composto), que aumentariam o percentual taurino sem perda da adaptabilidade.

Bingo! Entretanto, a F1 (a base meio-sangue) é uma novilha que, sem esforços, emprenha aos 14-15 meses a pasto ou 12-13 meses de idade com suplementação, parindo entre os 21 e 22 meses. O problema é que ela se encontra em uma fase de pleno desenvolvimento corporal e reservas energéticas necessárias no processo são drenadas pelo embrião. E quanto mais comida servida maior será o bezerro ao nascimento e mais vagaroso o crescimento da jovem mãe.

Então, além da composição sanguínea mais favorável, é preponderante o uso de touros com deps negativas para peso ao nascer, mas que sejam de rápido crescimento. Achar essas duas pérolas juntas dá trabalho porque, com exceção a raças naturalmente menores, é um material genético disponível apenas em rebanhos de seleção massal. Já quando a F1 torna-se vaca, é hora de explorar a heterose.

Senepol ajuda na facilidade de parto das novilhas meio-sangue e atinge 20@ aos 13 meses, com confinamento intensivo

Senepol ajuda na facilidade de parto das novilhas meios-sangues e atinge 20@ aos 13 meses, com creep e confinamento intensivo

Neste tocante, conheci um belo exemplo de trabalho. Em Rio Verde de Goiás, a Fazenda Reunidas Baumgart faz tricross utilizando Senepol nas primíparas, para prevenir problemas de parto, e Brangus ou Braford nas multíparas, com o objetivo de produzir carcaças maiores. O primeiro chega à terminação com 20@ aos 13 meses e os segundo e terceiro desmamavam aos 8-9 meses com uma média de 295 kg. Isso com creep-feeding e confinamento intensivo, claro.

E paciência quanto ao aporte nutricional, se optou por 75% de zebu ou 75% taurino, lembre-se da fisiologia animal, a não ser que tenha encontrado a relíquia de um reprodutor que desafia sua própria natureza (existe!). Indivíduos grandes são mais exigentes na dieta e mais tardios na terminação. Aproveitando a deixa, se objetiva marmoreio, os projetos de seleção para tal característica são incipientes na maioria dos zebus e adaptados.

Para encerrar, por quanto tempo segurar uma F1? Quem responde é o zootecnista Daniel Carvalho: “no caso de se fazer retrocruzamentos absorventes, ela servirá de base. Caso contrário, até a segunda cria a proporção de quilos de bezerro desmamado por quilos de vaca adulta ainda será interessante e não mais além disso”.

Na tabela mostro exemplos tricross de raças de diferentes grupos genéticos, mas  certamente devem existir fazendas-modelo que possam ter superado tais marcas, inclusive vi um resultado muito interessante de Guzerá no face recentemente. Agora é com você!

Desempenho da terceira  raça sobre base meio-sangue Nelore X Angus no abate 
Idade Raça Peso Sistema de Criação Estado
13 meses Senepol 20@ Creep+Confinamento Intensivo GO
16 meses Braford 18@ Creep+Confinamento Intensivo MS
21 meses Guzerá 18@ Pasto+Confinamento Estratégico GO
24 meses Charolês 22@ Confinamento Intensivo MT

 

Comentários

  1. RespostaAlvaro Guzmán
    Obrigado pelo post. E gostaría de saber se alguém já experimentou o tricross de Angus sobre a vaca F1 Senepol? Eu acho que a fêmea F1 Senepol pode ficar muitos anos na fazenda porque não cresce tanto nem é tão exigente como a F1 Angus que deve ser descartada no máximo após o segundo parto porque fica muito grande e exige uma boa alimentação. E ainda as F1 Senepol melhores caracterizadas podem ser cruzadas novamente com Senepol pra ir até a absorção já que as PO estão tendo muito bons preços. Acredito que os bezerros e bezerras F1 Senepol perdem por muito pouco para o F1 Angus en ganho de peso mas são mais adaptados e tem melhor conversão alimentar.
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Álvaro, Obrigado por seus comentários. Realmente, o mote deste post foi apresentar uma solução tricross para este grande remanescente de matrizes F1 Nelore X Angus ou ainda aquelas que estejam sendo produzidas. Particularmente, ainda não conheci produtores que tenham testado estes graus de sangue, mas posso pesquisar com algumas associações e zootecnistas que eu tenho contato.
  2. RespostaGabriela Giacomini
    Oi, Adilson, como você sabe, já passamos por todas essas fases, a 20 anos atrás. Algumas vezes quebramos a cara, outras acertamos em cheio. Depois de 25 anos, já sabemos que o composto funciona muito melhor que o tricross, já que controla o tamanho das vacas adultas, diminui lotes de manejo na fazenda, acaba com essa ciranda de raças e dá um resultado muito bom. Sem maquiagem, na safra 2014, foram 9100 pesagens a desmama. Tivemos uma média geral e AJUSTADA para 205 dias de 210kg - machos E FÊMEAS, sem creep, em 13 fazendas diferentes, localizadas nos lugares mais diversos e com dificuldades muito diferentes. Em termos de abate, temos levado o gado até 21/22meses, matando com 22/23@, bem terminado, com carne premium e rendimento de 55/56%, em regime de semi-confinamento. E matamos sabendo que caberiam mais @ na carcaça. Um abraço
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Oi Gabi, realmente encurta-se muito o caminho e o investimento, com ótimos resultados a campo. Acho muito válido, assim como tricross também ainda é, pois o excedente de vacas com composição sanguínea meio-sangue é muito grande. Obrigado por compartilhar os resultados com os nossos visitantes
  3. RespostaJuan Alberto
    Excelente comentario Sr Machado.
  4. RespostaJean Pierre Machado
    SHORTHORN é a resposta! Raça que não está presente em nenhum cruzamento atual, portanto alta heterose. Altíssima frequência de genes para marmoreio e macies, qualidade de carne garantida! Mansidão e boa produção de leite. Facilidade de parto! Rápido ganho de peso e capacidade de depositar gordura com rapidez. Todos dados são oriundos de décadas de estudos do Clay Center! Use uma raça provada pela ciência, não pelo marketing
    • RespostaAdilson Rodrigues
      Olá, Jean, obrigado por sua visita e considerações. Certamente, há espaço para o Shorthorn na pecuária brasileira. Precisaríamos averiguar o quanto o aumento da proporção taurina no sangue impactaria a produção em uma região mais exigente. Se você conhece resultados de tricross da raça deixe aqui nos comentários para que nossos visitantes conheçam também.

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